As fintechs e tecnologias financeiras mudaram a forma como pessoas, empresas e governos realizam pagamentos, contratam crédito, investem e administram dinheiro. O termo fintech resulta da combinação, em inglês, de financial e technology e designa empresas que usam tecnologia para criar ou aprimorar produtos, serviços e modelos de negócio no mercado financeiro.
O conceito é amplo. Segundo a definição citada pelo Banco Central do Brasil, fintechs são inovações financeiras habilitadas por tecnologia, capazes de produzir novos modelos de negócios, aplicativos, processos ou produtos com efeitos concretos no sistema financeiro. Por isso, o setor não se limita aos bancos digitais: também inclui empresas de pagamentos, crédito, seguros, investimentos, câmbio, gestão financeira e negociação de dívidas. O Banco Central explica as principais categorias de fintechs. (bcb.gov.br)
Da informatização dos bancos às plataformas digitais
A história das tecnologias financeiras antecede a popularização da palavra fintech. Bancos e outras instituições já utilizavam computadores, redes de comunicação e sistemas eletrônicos para registrar operações, processar pagamentos e administrar contas antes da expansão da internet comercial.
A transformação ganhou velocidade com a disseminação dos computadores pessoais, dos telefones celulares e da conexão à internet. Serviços que antes exigiam atendimento presencial passaram a ser oferecidos por sites e aplicativos. A digitalização reduziu a dependência de estruturas físicas e permitiu que novas empresas chegassem ao consumidor com operações mais concentradas em software, dados e canais remotos.
Na década de 2000, o comércio eletrônico e os pagamentos digitais ampliaram a demanda por ferramentas capazes de processar transações com rapidez e segurança. A crise financeira global de 2008 também é apontada pelo Banco Central como um dos fatores associados ao surgimento de novas propostas no setor. A partir daquele período, cresceram iniciativas voltadas a reduzir custos, simplificar jornadas e oferecer alternativas aos modelos tradicionais de intermediação financeira. (bcb.gov.br)
O avanço das fintechs no Brasil
No Brasil, a expansão das fintechs ocorreu em um ambiente marcado pela popularização dos smartphones, pelo crescimento do comércio eletrônico e pela busca por serviços financeiros mais simples. Empresas passaram a oferecer contas de pagamento, cartões, crédito on-line, plataformas de investimento, seguros e ferramentas de controle financeiro.
O setor brasileiro também foi influenciado por mudanças no marco regulatório. A Lei nº 12.865, de 9 de outubro de 2013, disciplinou os arranjos de pagamento e as instituições de pagamento. A norma criou uma base jurídica para empresas que viabilizam compras, transferências e movimentação de recursos sem necessariamente operar como bancos tradicionais. (bcb.gov.br)
Instituições de pagamento podem atuar como emissoras de moeda eletrônica, emissoras de instrumentos de pagamento pós-pago, credenciadoras ou iniciadoras de transações. Elas facilitam pagamentos e transferências, mas não são automaticamente instituições financeiras nem podem exercer todas as atividades privativas dos bancos, como a concessão de empréstimos e financiamentos em determinadas modalidades. O Banco Central detalha as modalidades de instituições de pagamento. (bcb.gov.br)
Crédito digital e novos modelos de negócio
Outro marco importante ocorreu em 2018, quando foram regulamentadas as Sociedades de Crédito Direto, conhecidas como SCDs, e as Sociedades de Empréstimo entre Pessoas, as SEPs. As SCDs realizam operações de crédito por meio de plataformas eletrônicas, enquanto as SEPs intermediam empréstimos entre credores e devedores.
Esses modelos permitiram que empresas especializadas em tecnologia oferecessem crédito sem reproduzir necessariamente a estrutura de uma instituição bancária tradicional. A análise de dados, a automação de processos e o relacionamento digital passaram a integrar a avaliação de clientes e a contratação de operações. As fintechs de crédito autorizadas pelo Banco Central estão sujeitas a regras específicas e suas operações são registradas no Sistema de Informações de Crédito. (bcb.gov.br)
A inovação, porém, não eliminou os riscos. Crédito digital pode envolver endividamento, falhas de segurança, fraudes, uso inadequado de dados e dificuldades para compreender tarifas e condições contratuais. Além disso, nem toda empresa que oferece um serviço financeiro é uma instituição autorizada pelo Banco Central. A natureza da atividade e o tipo de autorização são aspectos relevantes para avaliar a atuação de cada empresa.
Pix, pagamentos instantâneos e competição
O lançamento do Pix, em 16 de novembro de 2020, foi um dos principais acontecimentos recentes da história das tecnologias financeiras no Brasil. Criado pelo Banco Central, o sistema permite transferências e pagamentos em poucos segundos, a qualquer hora e em todos os dias da semana, por meio de bancos, instituições de pagamento e fintechs participantes. (bcb.gov.br)
O Pix ampliou a competição na indústria de pagamentos porque estabeleceu uma infraestrutura comum para diferentes instituições. Empresas puderam desenvolver serviços sobre essa base, incluindo soluções para comerciantes, sistemas de cobrança, conciliação financeira e pagamentos em plataformas digitais.
O sistema também acelerou a substituição de operações em dinheiro, boletos e transferências tradicionais em diversas situações. Esse processo não significa o desaparecimento imediato dos meios anteriores, mas mostra como uma infraestrutura pública de pagamentos pode estimular novos produtos e modelos de negócio.
Open Finance e uso compartilhado de dados
Outra frente de transformação foi o Open Banking, posteriormente ampliado para Open Finance. A proposta permite o compartilhamento de dados e a iniciação de serviços financeiros mediante autorização do cliente, dentro de regras e padrões definidos pelo regulador.
Com o consentimento do usuário, instituições participantes podem acessar informações necessárias para oferecer produtos mais adequados ou facilitar pagamentos a partir de outra plataforma. O objetivo é aumentar a concorrência, dar mais autonomia ao consumidor e reduzir a dependência de um único fornecedor.
No Brasil, a implementação foi organizada em fases. O projeto começou com informações sobre produtos e serviços financeiros e avançou para dados cadastrais, transacionais, iniciação de pagamentos e outros serviços. O Open Finance ampliou o escopo para áreas como investimentos, seguros e câmbio. (bcb.gov.br)
Regulação acompanha a inovação
O crescimento das fintechs levou autoridades a buscar equilíbrio entre estímulo à inovação, proteção dos usuários e estabilidade do sistema financeiro. No Brasil, o Banco Central passou a estabelecer regras para instituições de pagamento, fintechs de crédito, compartilhamento de dados e novos modelos de serviço.
Também foram criados mecanismos voltados à experimentação regulada, como ambientes em que empresas podem testar soluções sob acompanhamento das autoridades. O Marco Legal das Startups, instituído pela Lei Complementar nº 182, de 2021, estabeleceu regras específicas para empresas inovadoras e incluiu instrumentos relacionados ao ambiente de negócios e à contratação pública de soluções tecnológicas. (gov.br)
Esse processo mostra que fintechs e tecnologias financeiras não formam apenas um segmento empresarial. Elas fazem parte de uma transformação mais ampla, na qual software, conectividade, dados e infraestrutura de pagamentos passaram a ocupar posição central na prestação de serviços financeiros.
A evolução do setor depende, ao mesmo tempo, da capacidade de inovar e da confiança dos usuários. Segurança cibernética, transparência, proteção de dados, educação financeira e supervisão continuam sendo elementos essenciais para que a digitalização amplie o acesso sem comprometer a estabilidade do sistema.
